Hoje completam-se 29 anos da morte de Bob Marley, um ícone da música, da resistência, do povo negro. Bob influenciou várias gerações com suas canções que falavam de sua religião, denunciavam o racismo, falavam de amor ou da massa.
Reza a lenda que, quando Bob morreu, Salvador foi a cidade fora da Jamaica onde houve a maior comoção. Normal, em se tratando da maior cidade negra fora da África.
Bob é tão importante para a primeira capital do Brasil que se diz que vai “pro reggae” quando alguém vai sair à noite- em São Paulo se fala “balada” e, no Rio, “rock”.
Várias músicas marcantes da música baiana foram feitas em sua homenagem. A mais linda, “Brilho de Beleza”, do Muzenza, segue no clipe abaixo, cantada por Margareth Menezes, num pout pourri com “Depois que o Ilê Passar” e “Alfabeto do Negão”.
Procurei a música original cantada pelo Muzenza e não encontrei no Youtube, o que demonstra que o racismo é tão atual quanto no tempo de Bob. Mas Maga representa.
Êa, Bob!
Em protesto contra o racismo do Youtube, segue abaixo uma versão da música cantada por uma banda de reggae de sacizeiro – aquele reggae marcado pelo teclado e que as pessoas dançam rebolando, diferente dos pulinhos com que se dança reggae normalmente.
Completam-se hoje 40 anos do lançamento do último álbum dos Beatles, Let It Be. O álbum foi o derradeiro da maior banda e da maior manifestação artística de todos os tempos. Nenhum outro artista conseguiu influenciar a música e a cultura pop como um todo como os Fab Four.
As transformações foram tão fortes que é difícil hoje se encontrar alguma coisa na música que não tenha um pouco dos Beatles. Atribue-se à banda tantas invenções quanto o heavy metal, distorção de guitarras, psicodelia, instrumentos indianos, letras que falavam de drogas ou do cotidiano, álbuns organizados como um todo que não fosse apenas um ajuntamento de músicas, capas super produzidas, músicas que iniciavam onde a anterior terminava… Quem ouve “Tomorrow Never Knows” fica com a impressão de que até o trance foi inventado por eles.
Como muita gente queria ir aos shows, começaram a tocar em estádios; como mesmo isso era insuficiente, criaram videoclipes; como a vontade de se informar sobre eles era cotidiana, surgiu a mídia especializada.
Let It Be foi gravado numa espécie de Big Brother musical, com câmeras filmando todo o processo de gravação. A idéia era sair um documentário a respeito. Como o clima na banda já estava péssimo, avaliaram que o material estava horrível e guardaram. Só após o lançamento de Abbey Road foi que entregaram o material para Phil Spector mixar e lançaram o álbum, em 8 de maio de 1970.
Do disco, surgiu o lendário show no teto do edifício da Apple. O nome original do disco seria “Get Back”. Em 2003, Paul fez questão de lançar Let It Be… Naked, que era a versão original que os Beatles gravaram, sem as mixagens de Spector (e é bem mais legal).
Diversas músicas ficaram famosas, como a faixa-título, “The Long and Wind Road”, “Get Back”, “Across the Universe”. A música abaixo é “I Me Mine”, de Harrison. Normalmente, essa música é atribuída a uma crítica ao egoísmo, individualismo; George já estava bem zen nessa época e teria feito reflexões sobre o ego a partir de uma experiência com LSD.
Em Anthology, ele declarou : “I Me Mine is the ego problem. There are two ‘I’s: the little ‘i’ when people say ‘I am this’; and the big ‘I’ – ie duality and ego. There is nothing that isn’t part of the complete whole. When the little ‘i’ merges into the big ‘I’ then you are really smiling!”
O Folhão de hoje traz um artigo de Sérgio Melbergier comentando o resultado das eleições britânicas ocorridas nesta quinta-feira. Normalmente, não se deve perder tempo com esse tipo de texto; mas o título, “London Calling”, chamou a atenção.
Que Malbergier deite falação contra a esquerda e o socialismo não é nada demais: a empresa para qual ele trabalha existe para isso mesmo, reproduzir os valores ideológicos das classes dominantes. Mas ele não precisava distorcer a história do jeito que fez – muito menos utilizar um disco do The Clash para tanto.
O “colonista” – na definição de Paulo Henrique Amorim – afirma que a crise do capitalismo trouxe de novo à cena os conservadores ao poder. Utilizou o exemplo das eleições de lá para defender a redução do Estado, além de atribuir a crise da Grécia aos salários e aposentadorias dos servidores públicos e aos gastos do governo grego. Neoliberalismo na veia!
Quando se olha para a Grécia, vem à mente um passado recente de triste memória para o povo brasileiro: o tempo em que o FMI ditava a política econômica daqui via governo FHC. A máquina do Estado foi desmontada a não mais poder com privatizações de empresas e bancos públicos, redução do quadro de servidores, achatamento dos salários destes e redução dos investimentos públicos. O resultado foi recessão, desemprego, falta de infra-estrutura, apagão, P-36, privataria, arrocho…
Quem acompanha as últimas pesquisas eleitorais no Brasil, viu a diferença gritante entre os resultados do Sensus e do Datafolha. Mas, em um aspecto, os institutos apresentaram o mesmo resultado: metade dos eleitores brasileiros não votam de jeito nenhum em um candidato apoiado por FHC. É o resultado da combinação da política que Malbergier defende para o Brasil, a Inglaterra e a Grécia, como se todos os países tivessem a mesmoa realidade e as mesmas necessidades. Chamam a isso de ideologia.
Depois de sua análise patética da conjuntura, o “colonista” afirma que o socialismo acabou (o que a direita fala há vinte anos) e a esquerda não tem mais projetos alternativos, tendo se tornado “ambientalista”. Se o mundo fosse a Inglaterra, daria para entendê-lo, porque o Partido Trabalhista está cada vez mais liberal. Mas ele parece não ver o mundo à sua volta.
Após décadas de ditaduras militares e governos neoliberais, a América Latina presencia a ascensão de governos populares, originados nas classes que mais sofreram com a exploração pretérita e que nunca assumiam o poder. Elegeu-se um peão de fábrica no Brasil, um agricultor cocaleiro na Bolívia, um padre identificado com as causas dos de baixo na Paraguai, um ex-guerrilheiro no Uruguai, uma mulher na Argentina e Chile. Até os EUA foram pra esquerda com a eleição de um negão.
Por óbvio, após a experiência socialista hegemonizada pela URSS no século XX, a esquerda socialista busca novas formas de atuação no século XXI, adaptadas à nova conjuntura, onde o capitalismo assumiu a maior força de sua história.
Na Bolívia, país de economia pouco desenvolvida, nacionaliza-se setores estratégicos do capital; no Brasil, recupera-se a capacidade de investimento em infra-estrutura e educação do Estado, ao passo que se fortaleceram as empresas que sobraram da privataria (Petrobrás, Banco do Brasil, CEF) e (re)cria-se algumas (Petrosal e Telebrás); na China, houve uma abertura ao capital internacional com vistas à desenvolver suas forças produtivas e criar uma classe trabalhadora robusta, mas sob o controle do Estado na organização da economia privada ou no controle direto do setor financeiro. Mesmo Cuba está promovendo uma abertura econômica com Raul Castro, permitindo a exploração de pequenas propriedades agrícolas por exemplo.
Isso não quer dizer que esses países sejam governados pele direita, que abria as portas para o capital fazer o que quer com as economias nacionais, levando a exploração do trabalho alheio às últimas consequências sem uma intervenção mínima estatal e desorganizando o movimento dos trabalhdores.
As teorias de Malbergier parece que visam esconder o que se passa na Europa de verdade. Uma série de governos conservadores promove uma integração continental ultra-liberal, favorendo o capital em tudo e descendo a madeira no trabalho, tanto o legal quanto o dos imigrantes. O arrocho imposto à Grécia dá bem a dimensão da tragédia: corte de 30 bilhões de Euros, com redução de salários, aposentadorias e elevação dos impostos (qualquer semelhança com o Brasil de Fernando Henrique não é mera coincidência).
Porém, o mais revoltante no texto de Malbergier não é sua ideologia já conhecida; é o uso indevido do nome do disco (para muitos, o melhor da história do rock) do Clash. Esta era uma banda punk que, curiosamente, despontou no início do governo Thatcher, com letras politizadas e de esquerda.
Denunciava as instituições conservadores britânicas e o neoliberalismo em experimento ali, com músicas como “I´m So Bored with USA”, “Career Opportunities”, “White Riots”, “Hate and War”, “This is England” ou com um disco chamado “Sandinista!”. No clipe abaixo, Joe Strummer veste uma camisa onde está escrito “Brigate Rosso” (Brigada Vermelha) e com o símbolo do Baader-Meinhof. Ou seja, toda a teoria de Malbergier ao contrário.
A Folha de São Paulo tem todo o direito de escalar seus pitt-bulls para falar mal da esquerda. Mas não venha utilizar o sacrossanto nome de London Calling em vão!
Vinicius da Silva é mais um retirante nordestino que veio tentar a vida na cidade grande. É filiado ao Partido dos Trabalhadores, torcedor do Bahia e advogado.